Conversa de jovens com idade
Conversa velha para tentar
enganar os jovens usando a idade
ROBERTO
DAMATTA
Desnecessário
qualificar o colunista d’O Globo
Publicado: 26/02/14
- 0h00
Meu
primeiro comentário aos amigos de botequim — todos maiores de 70 — foi o
seguinte:
Nosso
comentário, seguramente em outro botequim – todos com dez anos menos, maiores
de 60 – já foi diferente:
Testemunhamos
a Segunda Guerra Mundial, o suicídio de Vargas, a Revolução Cubana e a Queda do
Muro de Berlim...
Nascemos
logo depois da segunda guerra, lemos sobre o suicídio de Vargas, a Revolução
Cubana nos inspirou e a queda do muro de Berlim... também reticências... Sabíamos onde estávamos durante
o golpe militar. Você só não diz aonde estavam... mas
tenho certeza que não estavam no CACO ( Fac. Nacional de Direito) para onde
foram os estudantes que tentaram resistir ao golpe, nem para a REDUC (Refinaria
Duque de Caxias – Petrobrás, invadida no mesmo dia do golpe, não foram levados
para o Estádio Caio Martins nem para o navio,
improvisado em prisão naquele dia... Naquela roda não havia nenhum
delator.Tampouco havia nenhum - não cabe usar aqui
combatente – resistente, digamos, ao golpe militar...
Ninguém foi simpático à violência que arrombava portas e levava as pessoas para
lugares desconhecidos onde elas eram Acredito, para
começar ser simpático à violência da ditadura não pegava bem, afinal eram todos
intelectuais... mas acredito mesmo que não eram simpáticos a isso, não eram
pessoas más... Mas tenho certeza que não se dispuseram a ajudar os perseguidos,
que não correram riscos de hospedar colegas que estavam sendo procurados, que
se assinaram algum manifesto contra a censura... foi antes do AI-5
torturadas por mascarados. AQUI COMEÇA A HIPOCRISIA
DESLAVADA! AQUI FICA CLARA A INTENÇÃO DO TEXTO! AS
MÁSCARAS! OS MASCARADOS!
A
Ku-Klux-Klan usava máscaras tal como os carrascos. Para
começar, quando nós fomos “sequestrados” ( porque preso é outra coisa, tem aí
uma aspecto legal – nós éramos “sequestrados”), levados para o DOI-CODI da Barão de Mesquita, os “carrascos” não
usavam máscaras... nós é que éramos ENCAPUZADOS na tortura.
Quem não
é honesto esconde a cara: o lugar da vergonha e da honradez.
Quando
das jornadas de junho, LULA também fez essa afirmação: “Nunca usei máscara
porque nunca tive vergonha do que fiz!”. Em resposta, postei um filme sobre a
greve dos metalúrgicos da CSN (Volta Redonda), de novembro de 1988, no qual os operários
aparecem “mascarados” com suas camisetas tapando o rosto – tal qual a meninada
de hoje em dia – eles estavam cercados pela tropa do Exército enviado pelo
então presidente, o eterno dono do Maranhão, José Sarney. O resultado desta “operação”
todos hão de se lembrar: foram assassinados os trabalhadores Willian, Barroso e
Valmir! Mas os operários mascarados continuaram na luta, a população foi para
as ruas apoiando a greve e o Exército teve que se retirar da cidade. Nessa
época Lula ainda não tinha que sentir vergonha, ainda não era “amigo” do
Sarney, nem do Maluf, nem do Renan, Jader Barbalho e toda a corja da chamada “base
aliada” da governabilidade. Abaixo do filme, escrevi, em caixa alta: “REALMENTE
NÃO PRECISA USAR MÁSCARA AQUELE QUE TEM VÁRIAS CARAS...” E, “quem não tem
vergonha dessas amizades acima citadas é porque é um SEM VERGONHA!”
Nesses
tempos de câmeras em todos os cantos da cidade e de uma PM assassina (sim, a
palavra de ordem mais válida das manifestações atuais é “SEM HIPOCRISIA, A PM
MATA POBRE TODO DIA”) super equipada tecnologicamente; o uso de máscaras é uma
autodefesa legítima. Diria até que é uma “leve” clandestinidade necessária, que
nem pode ser comparada com a que fomos obrigados a enfrentar a partir, pelo
menos, do AI-5. Sim, porque a clandestinidade não é uma escolha, é uma
imposição de quem persegue e reprime...
Em tudo o
que é humano há uma “estética” O símbolo dessa “estética”
deveria ser o monumento aos 3 operários assassinados pelo exército de Sarney em
Volta Redonda. Desenhado e projetado por
Niemeyer e uma “erótica”, a “erótica” talvez
esteja contida no atentado a bomba que destruiu esse monumento pouco tempo
depois, em mais uma ação TERRORISTA da “civilizada”
direita nacional. como bem disse Zuenir Ventura
Esse
que vcs gostam de chamar de “Mestre Zu” e que se fez com os livros “68: o ano
que não terminou” e “Cidade partida”, nunca esteve dentro dos sonhos de 68 –
que realmente não terminaram, continuam vivos até hoje através de uns poucos
que continuaram e de muitos jovens que o assumiram – e deveria frequentar mais
o outro lado da cidade, onde a polícia, pra vcs “pacificadora” entra arrombando
as portas e mata sem pestanejar... depois é só fazer um “auto de resistência”
ao falar do primitivismo dos
quebra-quebras promovidos pelos black blocs.Vamos
definir o que é quebrado nos quebra-quebras: a PM quebra gente os manifestantes
quebram coisas... O que te choca mais? Gente ferida,
jornalistas cegos, ou vitrines de bancos quebradas???
Em
nenhuma manifestação houve quebra-quebra antes da PM agir. Quando NÃO TEM PM é SEM
VIOLÊNCIA!
Mas há
também uma ética. ÉTICA??? Acho que é o conceito mais
desvalorizado da lingua portuguesa! Minto, tem a palavra que vcs mais gostam “DEMOCRACIA”.
Eu pergunto: “Qual é a qualidade democrática de uma sociedade na qual todos têm
os mesmos direitos mas somente alguns podem exercê-los????
Uma
calibragem ente meios e fins usados. Uma ética que pode ser rejeitada, mas tem
que ser discutida.
Se uma
pessoa leva uma arma para um estádio de futebol, ela confunde esporte com
guerra. O jogo simboliza uma guerra, mas guerra não é jogo. O jogo produz
vencedores e vencidos, uma guerra produz mortos. MORTOS???
Na guerra do cotidiano morre gente, muita gente, todo dia. Repito: SEM
HIPOCRISIA... A PM MATA POBRE TODO DIA!!!
Ela é
irreversível nas suas consequências. Sem dúvidas.
Descobriram
que a violência tem estética e foco; mas o risco é que a violência leva ao
abandono da negociação. A violência é precisamente a maquina de liquidar
A
VIOLÊNCIA É UMA MÁQUINA DE LIQUIDAR sem mediações e transformações.
Nenhum de
nós é programado de modo definitivo como ocorre com gatos e ratos. Nosso
cérebro é complexo justamente porque ele é capaz de receber todas as
programações. Nossos cérebros, estamos falando de nós
que não tivemos que gastar energia para combater a disenteria, porque não vivemos
ao lado de valas negras, porque tivemos saneamento básico e água de qualidade
e, portanto, pudemos utilizar todas as energias para a formação de neurônios...
para termos cérebros capazes de receber todas as programações... ????
Quando, numa disputa, atingimos o outro
fisicamente, ferindo ou destruindo seu corpo ou patrimônio, nós negamos o outro
que vive em nós. Cacá Diegues escreveu em boa hora clamando por um “humanismo
radical”, que fala exatamente disso. Não poderia existir nada pior do que um
“humanismo armado”. Humanismo. SE RADICAL, TEM QUE SER ARMADO, ARMADO DE ARGUMENTOS, DE
SONHOS, DE VONTADES, DE DISPOSIÇÃO e caso encontre UMA REPRESSÃO ARMADA, TEM TODO
O DIREITO, E MAIS AINDA O DEVER, DE RESISTIR! SE
HUMANISMO TEM QUE COMBATER O QUE É DESUMANO!
Com legitimidade para transformar pela
violência os adversários em inimigos. A menos que a nossa onipotência nos
informe que só as nossas ideias do mundo são legítimas. E isso seria cair no
mais puro fundamentalismo cego e surdo a outros pontos de vista. Esse padrinho
de todos os fascismos de direita e de esquerda. Por
favor, um mínimo de rigor teórico... se quiser xingar, arranja outros
xingamentos... fascismo é direita... rotule direito os erros da esquerda.
Mario
Batalha, amanuense aposentado que sofre da próstata, adora ler Dashiel Hammet e
as vezes pensa que é um dos seus heróis, diz que é um perigo esse tomar partido
diante de um hospede tão indesejável como a violência.
Radical,
ele considera as estéticas da violência mistificações. Sobretudo os filmes de
guerra, os quais, são desenhados para glorificar o “nosso país”. Algo pérfido
do ponto de vista ético. O coletivo pode ser tão errado quanto o individual.
A
violência só pode ser tida como normal enquanto for algo a ser evitado.
Transformá-la num valor, legitimando-a, é um erro e uma perversão. Ele lembra
os uniformes nazistas, as armas, as medalhas e os mitos heroicos que ajudam a
matar jovens em guerras nacionais e revoluções as quais, passados uns poucos
anos, deixam de ser a salvação do mundo.
Felizmente,
completa sempre otimista, ninguém pensa deste modo.
O
filosofo social Hernandez Braga, operado da próstata, o único dentre todos nós
que havia sido “el-presidente” de Cu do Mundo, arrematou: o problema é sempre
de proporção.
Como
gastar uma verba pública? Em Cu do Mundo, ela era inteiramente roubada. Já em
Fuckland, uma cidade do meio-oeste americano (corre o boato de que Tarantino
nasceu lá), o prefeito sem salário fazia retiradas comedidas do erário público.
Mas, quando foi descoberto como ladrão do dinheiro do povo, que nos Estudos
Unidos inclui também os “pobres”, ele foi preso sem embargos.
A questão
é como relacionar meios e fins. Não se mata mosquito com tiro de canhão, nem se
pretende pôr fim à violência acendendo velas. Discutir limites em tempos de
surtos legítimos de igualdade é uma tarefa complexa e fundamental.
Edmundo
Barroco, um ex-professor de mecânica que também sofre da próstata, comentou ao
sair do banheiro que esse era o centro da questão.
Antes de
20 anos do Plano Real, quando existiam muitas moedas, a hiperinflação inibia o
calculo econômico e o consumo de certos bens era impossível, aceitávamos as
desigualdades com mais tranquilidade. Ademais, a corrupção não podia ser
calculada e era um atributo dos governantes. Hoje, há um consumo generalizado e
quem compra escolhe e se iguala. Meios e fins são claramente calculados: se
quero um carro, devo economizar “x” por mês. Milhões têm feito isso e sentido
na carne o gosto da mobilidade social.
Com o
carro, porém, vem a pressão por melhores estradas e malha urbana. Isso para não
falar no estilo menos violento de dirigir como o DaMatta (que, eu fiquei
sabendo, operou a próstata) diz no seu livro “Fé em Deus e pé na tábua”. Em
sociedade, uma coisa leva a outra.
Você acha
mesmo que a estabilidade promoveu mais igualdade e cobrança dos políticos?
Olhe aqui
— gritou do outro lado da mesa o advogado — Doutor Raposão — que também sofre
da próstata: se há consistência na economia, deve haver também na política!
COMO DEVE TER FICADO CLARO, PAREI...
Por um lado, “haja paciência” responder
ponto a ponto um texto eivado de hipocrisia requer um esforço, um gasto de
energia, que devemos guardar para outros objetivos... Por outro lado, os
personagens criados pelo autor do texto estão fracos. O que é isso? Uma
tentativa de “mal” copiar o João Ubaldo com seus conterrâneos de Itaparica?
Fraco, muito fraco... é que era só pra encher o espaço, a lingüiça, o objetivo
(não) oculto era falar das máscaras, dos MASCARADOS!!!
Não quero terminar sem falar do mal que
vcs causam com seus artigos na editoria de opinião desse jornal. Os artigos dos
porta-vozes explícitos da ultradireita (aprendizes de Olavo de Carvalho) –
Rodrigo Constantino, Demétrio Magnoli, Denis Lerrer Rosenfield, etc – causam revolta;
e revolta é combustível para que a luta continue. O mal que gente como o autor
deste artigo, Zuenir Ventura e outros, que conseguiram construir uma “aura” de
respeitabilidade acadêmica; é muito maior, pois causam desesperança....
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